Por Leonardo Esteves
Se o cinema brasileiro dos últimos 20 anos chegou a acenar, mesmo que discretamente, com o espírito das superproduções épicas que outrora caracterizaram as grandes produções hollywoodianas assinadas por um Cecil B. DeMille nos anos 30, 40 e 50 (entre outros), esse cinema foi dirigido por Sérgio Rezende.
A comparação entre os dois diretores citados acima parece estranha, mas Rezende, assim como DeMille, parece ter verdadeira paixão por super-produções históricas (“Cleópatra” e “Sansão e Dalila” de um lado, “Lamarca” e “Guerra de Canudos” de outro) e grandes orçamentos. O tempo e muitos milhões de dólares separam o trabalho desses cineastas. Rezende aposta em figuras históricas regionais enquanto DeMille dialogava com o mundo através de suas produções, certamente os maiores espetáculos da Terra naquele momento.
“Salve Geral”, última produção de Rezende, é o candidato brasileiro da vez para o Oscar. A violência atual, o maior espetáculo da Terra desse momento, é a tônica do filme e assume um discurso bastante épico, ecos de “Cidade de Deus”, “Última Parada 174” e o que de pior foi feito sobre o combate ao crime na cinematografia atual.
No entanto, essa obsessão em retratar heróis e anti-heróis (a galeria é extensa: Zuzu Angel, Mauá, Carlos Lamarca, Tenório Cavalcanti) foi algumas vezes abandonada pelo diretor. E o melhor que foi feito nesse sentido é um despretensioso e pouco falado filme chamado “Quase Nada” – o título está em plena conformidade com a obra se comparada às demais produções do diretor.
Se a fase atual de Rezende clama por um salvamento geral, “Quase nada” é seu melhor filme desde “Até a Última Gota”, seu primeiro trabalho. DeMille terminou sua carreira com o inesquecível “Os Dez Mandamentos”, um épico bíblico. Não poderia (ou talvez nem quisesse) mais voltar atrás (?) e fazer um filme pequeno. Rezende fez “Quase Nada” e voltou para as superproduções vazias de onde saiu para retomar sua filmografia autoral quase nada perto de sua obra “main stream”. DeMille era um cineasta americano em plena conformidade com seu tempo e área. Rezende não. Mas “Quase Nada” é um filme interessantíssimo. Talvez seja quase tudo o que o cineasta tenha dito em termos de cinema em sua carreira.
Definitivamente DeMille não pode ser comparado com Sérgio Rezende. E o diretor brasileiro tem uma vantagem sobre o diretor americano: seu projeto de superproduções não tem e nunca terá a abrangência da filmografia de DeMille, o que torna pequenos projetos como “Quase Nada” simpáticas e inspiradas lufadas de ar fresco em uma filmografia viciada na grandeza equivocada. DeMille talvez não pudesse mais voltar atrás e fazer algo diferente. Como um dos fundadores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o diretor já estava completamente imerso na revolução que ele ajudou a criar. A coisa o consumiu de tal maneira que ele teve um ataque cardíaco no set de “Os Dez Mandamentos”. Voltou ao set depois de alguns dias em repouso, contrariando às ordens dos médicos. Tempos depois ele morreu do coração, “de cinema” (fazendo cinema), enquanto no Brasil morre-se tentando fazer cinema.
Rezende nunca vai fazer um filme como DeMille. No entanto, DeMille nunca fez um filme como “Quase Nada” – até por postura, sua obra ia na filosofia do “quase tudo”.
“Quase Nada” passa no Canal Brasil, na Seleção Brasileira, sábado as 23h.