Da telona para a telinha
Por Leonardo Esteves
Carlos Reichenbach é talvez o realizador egresso da Boca do Lixo que tenha tido a carreira mais próspera e duradoura. Seu último filme, “Falsa Loura”, destaque na programação do Canal Brasil, é um exemplo disso. Os tipos populares que compõem os filmes do diretor são também uma peculiaridade que faz de Reichenbach um dos nomes mais interessantes do cinema paulista. “Anjos do Arrabalde”, “Garotas do ABC” e “Falsa Loura” são interessantes investigadas no universo proletário de São Paulo. Os dois últimos compõem um projeto do diretor que inclui ainda outros roteiros de produções ainda não filmadas.
Em “Falsa Loura” temos um elenco de primeira (incluindo aí Rosane Mulholand e Djin Sganzerla) e um roteiro bastante competente. Foi uma pena o filme ter ficado pouco tempo em cartaz. Reichenbach é um contador de histórias com fartas referências cinematográficas, políticas, filosóficas, que norteiam sua obra e faz parecer que estamos sempre diante de incontáveis homenagens a filmes/ pessoas que contribuíram para a formação do diretor.
O que costuma depor contra Reichenbach é a fraca direção de atores, que faz com que muitos momentos em diversos filmes fiquem soando como uma reverberação de uma página de roteiro, faltando espontaneidade e, acima de tudo, uma vitalidade que nem todo ator (mesmo bom ator) consegue alcançar sem um direcionamento do diretor. Mas muitas vezes essa deficiência acaba somando no final das contas. Como em “Garotas do ABC”, no qual as Garotas, operárias do ABC, muitas vezes soam mecânicas em suas falas e movimentação dentro do plano (pode funcionar até como uma metáfora, tendo elas passado tanto tempo naquela vida e, sem ilusão, como “Falsa Loura” vem nos provar, sem possibilidades de mudança).
Em “Falsa Loura” também temos um bom flerte com a música cafona e toda a tietagem que cerca aquele universo (e que, não por acaso, encontra a sua resposta nessas Garotas, tietes em seu tempo de folga, quando estão fora das fábricas). Reichenbach realizou um belo filme, como vem fazendo mesmo em curtas recentes, como “Equilíbrio e Graça”. Seus longas recentes, focados nessa classe operária, estão em plena sintonia com o que está retratado neles, um universo sem muito rebuscamento, com aparentes discrepâncias e gosto duvidável. São belas realizações que encontram uma boa sustentação também em sua produtora, Sara Silveira, que junto com Reichenbach, formam uma das parcerias mais interessantes do cinema brasileiro dos últimos anos.